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Nas ultimas semanas, e especialmente nos últimos dias, o noticiário está dominado com notícias sobre o novo corona vírus. Muito está se falando sobre seus impactos na economia, na rotina das pessoas, na saúde. Também precisamos falar sobre os impactos na saúde mental em consequência da pandemia de Corona. Sou o psicólogo Luiz Silverio e hoje vou falar sobre como proteger sua saúde mental nestes tempos de incertezas e pandemia.

MUDANÇAS NA ROTINA

Ruas Vazias na Itália

Com o objetivo de conter a propagação do novo Corona Vírus muitas medidas foram tomadas: escolas foram fechadas, pessoas orientadas a não sair de casa e a não ter contrato com outras pessoas, informações são divulgadas na televisão a todo o momento, pedidos repetidos para as pessoas lavarem as mãos são feitos

Essas medidas podem ser eficazes para conter a propagação do vírus, entretanto podem causar impactos na saúde mental da população. No caso da quarentena ficar em casa sem fazer nada, apenas assistindo Netflix pode parecer interessante no começo, contudo com o tempo a pessoa acaba se sentindo mal.

Os sentimentos negativos aparecem por um motivo muito simples: nos sentimos inúteis quando não estamos trabalhando. É cruel, eu sei, mas o trabalho acaba assumindo grande importância nas nossas, vidas, a ponto de fazer parte da nossa identidade. Vou dar alguns exemplos, eu me identifiquei no começo como psicólogo Luiz Silverio, eu poderia falar apenas o meu nome, porém ao falar minha profissão isso me dá um senso de identidade e legitimidade. Geralmente quando alguém pergunta quem você é, você diz seu nome seguida de sua profissão. O trabalho pode ser tanto fonte de satisfação como de angústias, mas não é possível negar sua importância.

Quando uma pessoa está de quarentena dois fenômenos podem afetar sua saúde mental : a primeira é que fazemos coisas que não nos trazem grande satisfação, por exemplo ficar assistindo séries o dia inteiro; a segunda é que deixamos de fazer coisas que nos trazia satisfação como trabalhar, sair, conversar pessoalmente com os amigos, ir a eventos culturais, frequentar serviços religiosos, cinema, parques, etc.

As alterações na rotina afetam diretamente o nosso humor, com a perda de atividades satisfatórias e o aumento de atividades passivas (como ver TV), nos sentimos cada vez pior. Esses sentimentos negativos são potencializados pelas notícias cada vez piores das consequências do Corona. A primeira coisa que temos medo é da morte, seja nossa ou de nossos familiares. Esta preocupação pode causar a elevação da ansiedade e do medo nas pessoas. Na sequência o nosso receio recai sobre a perda de coisas importantes para nós alem das pessoas, que são o emprego, dinheiro, uma possível falta de alimentos.

A violência acaba sendo outra preocupação já que em casos extremos sempre há aumento nos quadros de violência pelos impactos psicológicos que a pandemia causa nas pessoas, principalmente da violência doméstica.

Por fim a desinformação é outro fator importante a ser considerado. A disseminação de fake news, ou notícias falsas, está cada vez maior na internet. Alguns grupos de pessoas utilizam esse tipo de notícia para tentar influenciar as pessoas pensarem de determinada forma que é mais favorável a seus interesses. Por exemplo nas eleições de 2018 surgiram várias histórias falsas sobre os candidatos a presidência. As pessoas que produziam essas histórias, imagens, memes, etc, tinham por objetivo influenciar os eleitores a votar em determinado candidato. Outro objetivo das pessoas que produzem Fake News é aumentar o acesso a seus sites, blogs e canais para ganharem dinheiro com publicidade.

Em tempos de pandemia as fake news causam muita desinformação e podem ser causadora de comportamentos de risco ou ansiedade. Exemplos de Fake News que já surgiram são: a China ter criado o vírus em laboratório para lucrar com a queda nas Bolsas de Valores do mundo; que o Álcool em Gel 70% não mata o vírus e que o vinagre é mais indicado; e ainda que a ingestão de álcool ou cocaína ajuda a combater o vírus.

VULNERABILIDADE EM TEMPO DE CORONA VÍRUS

As ações de isolamento, as mortes por conta do vírus, as incertezas com a economia, a disseminação de Fake News, podem trazer consequências emocionais importantes para as pessoas. Quanto mais tempo durar a quarentena, maior pode ser o impacto psicológico. São comuns sintomas como: aumento da ansiedade, raiva, frustração, tédio, ataques de pânico, episódios depressivos, transtornos de estresse pós traumático, entre outros.

Não necessariamente os sintomas vão aparecer na quarentena, em alguns casos eles podem aparecer depois que o período de isolamento já estiver acabado. Isso ocorre quando o fato de ficar isolado acabou tendo alguma consequência na vida das pessoas, por exemplo, com a morte de algum ente querido, a perda do emprego ou a mudança na rotina de vida; ou pela possibilidade de passar novamente pelo sofrimento.

Pode acontecer também o aumento da violência, principalmente a violência contra a mulher. Como as pessoas ficam inundadas de sentimentos negativos, elas se tornam mais sensíveis ao incômodo. Ou seja, coisas com que normalmente não eram consideradas relevantes passam a causar desgosto e raiva. E uma das formas de lidar com a estimulação, agora é aversiva, é tentar eliminar estes estímulos. Alguém com histórico de resolver as coisas pela violência pode acabar utilizando deste recurso inadequado. O impacto na economia também pode gerar o aumento na violência.

REAÇÕES E COMPORTAMENTOS COMUNS EM PANDEMIAS

É possível encontrar algumas reações que são mais frequentes em pandemias. Saiba quais são essas:

  • Medo de estar doente. Como há muita informação e desinformação em tempos de pandemia as pessoas passam a monitorar mais o seu corpo, muitas vezes a ponto de sentir que tem alguma coisa onde não tem. Outros sintomas comuns aos causados pelo agente pandêmico passam a ser motivo de preocupação. Muitas pessoas procuram o sistema de saúde apenas para confirmar que não estão doentes, mesmo não apresentando sintomas, ou apresentando sintomas que não estão relacionados ao vírus. Esse é um mecanismo de autoproteção.
  • Medo da maneira como se morre. Outro medo comum é do sofrimento que a doença pode causar até evoluir a óbito. A pessoa, contaminada ou não, tem a ansiedade aumentada pela possibilidade de morrer sofrendo.
  • Medo da morte. Do sofrimento ao morrer, de deixar pessoas queridas sem amparo, do arrependimento que não foi reconciliado, de ir para o inferno, do desconhecido que é a morte.
  • Recusar-se a procurar profissionais de saúde. Assim como tem as pessoas que ficam obcecados em procurar o médico, há as que se recusam a ir. Essa recusa decorre do medo de uma possível notícia de contaminação, que para ela acaba significando que vai morrer.
  • Receio de perder o sustento. O medo de perder o emprego é um dos mais frequentes e que gera mais ansiedade. Isso porque sem trabalho a pessoa ficaria com dificuldade de cuidar de si e de seus entes queridos caso venha a ficar doente. O sentimento de vulnerabilidade é muito grande.
  • Sentimentos de desamparo e depressão. Decorrentes tanto do isolamento como da impossibilidade de fazer algo para eliminar o perigo da pandemia.
  • Sentimentos de raiva e desconfiança. De tudo e de todos relacionados à doença. No caso do Corona pode haver sentimentos xenófobos contra chineses.
  • Estigmatização e medo de outras pessoas. Passar a ter medo de outras pessoas, de profissionais de saúde, de cuidadores é uma reação comum. Esses sentimentos aparecem devido a informações repetidas continuamente de evitar contatos para não se contaminar, e em algumas pessoas pode ficar muito forte. Isso pode causar até ameaças e violência física contra profissionais de saúde.
  • Recusar de cuidar de pessoas vulneráveis por medo de contaminação.
  • Acreditar que Deus ou a oração é a única coisa que pode livrar. A fé pode se tornar cega a ponto da pessoa negligenciar cuidados acreditando que Deus não vai deixar nada acontecer com ele.
  • Inventar e/ou acreditar em teorias da conspiração. É uma forma de negação da doença e de suas consequências.
  • Minimizar os efeitos da pandemia. Essa é outra forma de negação, essas pessoas são as mais afetadas já que costumam não tomar o mínimo de precaução.

Algumas destas atitudes citadas acima surgem de medos realistas, outras já são frutos de desinformação e de fake news. Profissionais de saúde e voluntários podem acabar sendo hostilizados, excluídos de redes sociais, ignorados pelos próprios familiares, isso porque são considerados como possíveis transmissores do vírus, de não fazer o suficiente para proteger as pessoas e, até mesmo, estarem escondendo itens de proteção como máscaras e álcool.

COMO PROTEGER SUA SAÚDE MENTAL NA PANDEMIA DO CORONA

Existem alguns fatores que são de risco para a saúde mental em tempos de pandemia, e outros que são fatores protetivos. Depois vou detalhar algumas ações efetivas para poder proteger sua saúde mental neste momento.

Fatores de risco à saúde mental

  • Dívidas, dificuldade financeiras, desemprego. Uma das maiores vulnerabilidades está na condição financeira da família, que pode afetar a aquisição de alimentos, medicações, acesso à médicos e mesmo equipamentos de proteção. Quando a família tem poucos recursos é esperado o aumento da ansiedade devido a preocupação com a sobrevivência de si e de terceiros.
  • Doenças crônicas e idade avançada. As pessoas com doenças crônicas e os idosos são a população que mais tem risco de morte, desta forma alguém nesta condição vai aumentar o estresse de toda a família pela preocupação com seus entes queridos. Aumenta ainda mais pois há muitos idosos que tem sua autonomia e são teimosos, se recusando a ficar em isolamento.
  • Medo da morte. O receio de morrer atinge grande parte da população nos locais que há casos confirmados, e independe da idade. Todo risco à vida gera estresse e ansiedade.
  • Desinformação e Fake News. Quanto mais notícias equivocadas ou enganosas as pessoas tiverem acesso, pior vai ser a saúde mental dela haja vista sentimentos negativos gerados por ela. Vou dar um exemplo: “gargarejo com salmora mata o vírus que fica alojado por quatro dias na garganta”, essa notícia falsa pode dar a esperança para a pessoa que a pandemia não é tão grave, porem vai gerar sentimentos de raiva também já que ela estaria passando por tanto sofrimento por algo mínimo.
  • Trabalhador da área da saúde. Estes trabalhadores estarão na linha de frente do enfrentamento ao vírus, são os que apresentam mais risco de ser contaminados. Muitas vezes não tem equipamentos de proteção adequados, alem de terem um aumento súbito e intenso na sua carga de trabalho. Os profissionais da saúde poderão ter crises de ansiedade, quadros depressivo, ataques de pânico e reações físicas e psicológicas ao estresse.
  • Adolescentes e crianças. Esse grupo muitas vezes não tem recursos intelectuais ou emocionais para lidar com o confinamento, com o aumento geral do estresse na família, com informações não direcionadas a eles.
  • Caso de adoecimento na família. A possibilidade real de morrer por causa da doença é um fator de risco à saúde mental muito importante, tanto para a pessoa que se depara com essa situação, quanto para seus familiares. É normal crises de choro, desânimo e desamparo, negação e raiva.
  • Isolamento social. O isolamento de outras pessoas, a mudança na rotina, como já foi falado, gera muitos sentimentos negativos nas pessoas.
  • Presenciar pessoas sofrendo. Ver sofrimento de outras pessoas, mesmo que seja um desconhecido, vai trazer em nós angustia e sofrimento também.
  • Dependência química. Com o aumento da ansiedade pode aumentar a fissura por álcool ou drogas também.
  • Presença de um transtorno mental. Quem já está com problemas emocionais tem a tendência de tê-los agravados.

Fatores de Proteção à Saúde Mental

  • Rede de apoio. Ter outras pessoas com quem contar na hora da dificuldade pode ajudar a diminuir a ansiedade e a preocupação.
  • Religião. Já foi comprovado que a religião é um fator protetivo para a saúde mental. Ela também pode ajudar a resignificar o sofrimento e aumentar a resiliência.
  • Boa saúde física. Tem um ditado que diz “corpo são, mente sã”, se você tem uma boa saúde física isso te deixa menos preocupado com possíveis efeitos de uma infecção pelo covid-19.
  • Acesso a profissional de saúde mental. A possibilidade de receber orientações e ter espaço para escuta com psicólogos e psiquiatras ajuda a lidar com as preocupações, com o aumento da ansiedade e do estresse.
  • Proteção própria e da família. Quando a pessoa sabe que ela e seus familiares estão protegidos há uma diminuição no nível da ansiedade e do estresse.

COMO PROTEGER A SAÚDE MENTAL EM TEMOS DE CORONA

Algumas ações podem ser tomadas para proteger sua saúde mental neste tempo de pandemia. Veja quais são elas:

  • Estabelecer horários para acordar e para dormir. Ir dormir 2:00 hrs da madrugada e acordar às 11:00 hrs não é aconselhável, principalmente depois da primeira semana de quarentena. Mesmo que você não precise levantar às 06:00 hrs da manhã, o ideal é que não vá dormir muito tarde e não passe das 8:30 para levantar. Manter essa rotina de horários ajuda o corpo a não estranhar tanto a mudança de horário.
  • Praticar atividades físicas em casa. Não é por que você não pode ir à academia que deve parar de se exercitar. Existem vários tipos de exercícios que podem ser feitos na sua casa mesmo, é só procurar no youtube.
  • Estabelecer uma rotina. A desorganização de horários pode ter um impacto bem intenso no humor, o melhor é estabelecer uma rotina com períodos dedicados para trabalho, para alimentação, para lazer, para dormir (pelo menos 8hrs de sono toda a noite para ajudar na imunidade) e par as outras coisas. Essa rotina pode ser flexível, porém não muito.
  • Evitar atividades passivas. Ficar na frente da televisão ou jogando videogame são atividades que não trazem satisfação, apesar de serem prazerosas. O problema disso é que você se sente inútil no final do dia por não tem feito nada útil.
  • Desenvolver novos Hobbies. Nós temos a tendência de achar que ja sabemos de tudo o que gostamos e o que não gostamos, por isso na vida adulta muitas vezes nos privamos de tentar fazer coisas novas. Esse é um otimo momento para experimentar coisas que você nunca fez por exemplo desenhar ou pintar, aprender a tocar um instrumento, fazer aulas de inglês, aprender a bordar ou tricotar, fazer algum curso on-line, etc. Lembrando que para pegar o gosto por uma atividade precisamos de persistência e repetição.
  • Procurar atendimento psicológico on-line. Mesmo seguindo as dicas acima muitas pessoas terão dificuldade de lidar com os impactos da pandemia na vida e necessitarão de um acompanhamento psicológico.
  • Aproveitar para arrumar e faze reparos na casa. Sabe aquela faxina que você vem adiando? O guarda-roupa precisa ser arrumado? E aquele furo no telhado que quando chove alaga a cozinha? Aquela pia vazando há anos que nunca foi arrumada? E aquele matagal no seu quintal que está quase virando área de reflorestamento? Fazer essas arrumações e reparos podem ser muito gratificantes.
  • Aproveitar a família. É um momento que todos estão reunidos, então invente coisas pra vocês fazerem juntos ao invés de ficar deitado na frente da televisão de pijama. Jogue bola com os filhos, conte historias de sua infância e juventude pra eles, faça exercício junto com seu marido/mulher, redescubra a alegria de estarem juntos.
  • Pensar em outras fontes de renda que você pode fazer em casa. Tem alguma habilidade que pode gerar uma renda extra? Neste momento de incerteza pode ser bem vinda.
  • Fazer sexo! Com seu(a) companheiro(a) de preferência, ajuda muito a melhorar o humor. Deixe o(a) amante(a) pra quando tivermos vacina.
  • Evitar excesso de informação. Procurar se informar sobre a pandemia apenas uma vez ao dia, por no máximo uma hora. O excesso de informação causa ansiedade e desespero, além de não ajudar efetivamente em nada.
  • Checar as noticias de whatsapp. Antes de compartilhar veja se aquilo que sua tia mandou no grupo da família é realmente verdade ou é uma fake news.
  • Tomar precauções com a contaminação. À medida que você sente que sua casa está limpa e seus familiares protegido, você se sente muito melhor. Estabeleça uma área suja na sua casa em que você deixa as roupas e sapatos quando chega da rua, higienize as mãos e tome banho assim que chegar em casa, use máscara ao sair de casa (mesmo as que não podem filtrar o vírus impedem de tocar rosto na boca e nariz), evite aglomerações de pessoas. Essas medidas simples podem te dar um alívio na ansiedade já que você sente que sua casa está protegida.
  • Assistir serviços religiosos on-line. Como ja falei a religião é um fator protetivo de saúde mental, assistir cultos on-line e orar são medidas muito boas para te deixar mais calmo.
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