Adolescentes podem sim desenvolver depressão, porém os sintomas se apresentam de forma diferentes da depressão em adultos. Neste artigo vou falar:

O que é depressão;

Quais as causas da depressão em adolescentes;

O risco de suicídio em adolescentes;

Como tratar adolescentes com depressão.

O que é depressão

Depressão é o que chamamos de transtorno do humor, ou seja, afeta como nos sentimos a respeito de nós mesmo, dos outros e do mundo. É importante entender que as pessoas não escolhem ficar com depressão, ela é uma doença que se desenvolve por alguns fatores que vou explicar ao longo do texto.

As duas principais características da depressão são: tristeza e perda do prazer. A pessoa se sente triste a maior parte do dia, quase todos os dias e não consegue sair disso. No caso da perda do prazer, é como se nada mais do que ela gostava de fazer fosse prazeroso, não acha mais nada interessante, e quando acontece alguma coisa boa é como se fosse algo insípido.

Alem dos citados acima uma pessoa deprimida também pode apresentar outros sintomas: dificuldade para dormir, ou dormir muito; irritabilidade; fadiga ou perda de energia, precisar se esforçar de mais para conseguir fazer algo; não querer interagir com as pessoas, permanecer a maior parte do tempo quieto quando é obrigado a estar com alguém; pensamentos acelerados tentado arranjar uma maneira de melhorar; pensamento pessimista; diminuição no desejo de se envolver em uma atividade sexual (diminuição na libido); dificuldade de tomar decisões; comer compulsivamente ou perder o apetite; ver ou ouvir coisas que outras pessoas não conseguem (alucinações e alucinoses); vontade de se matar ou de sumir; sentimento inutilidade; fazer tudo mais devagar ou ficar agitado.

Pelo menos 5 destes sintomas devem estar presentes nas ultimas duas semanas para indicar uma depressão, e destes pelo menos um deve ser ou tristeza ou perda do prazer e interesse.

É importante ressaltar que depressão não é frescura, e também que “força de vontade” não cura depressão. É uma doença séria, o que a pessoa mais quer é sentir felicidade de novo, porém ela não consegue. Dizer para a pessoa “levanta dai e vá fazer alguma coisa!” ou “você ao menos está se esforçando?” só vai piorar o quadro, não ajudar. Sei que muitas vezes os familiares e amigos agem assim com as melhores das intenções, mas como diz o ditado “de boas intenções o inferno está cheio”, e é exatamente por isso que estou escrevendo este artigo.

Depressão em adolescentes

Acima falei da depressão de uma forma geral, agora vou discorrer especificamente da depressão em adolescentes.

Antes de falar sobre os sintomas, é importante frisar que o objetivo deste texto é orientar os pais para que observem o comportamento dos filhos e, se perceberem algo mais grave, procurarem um especialista. Porém tenham cautela, muitos pais têm o costume de chegar com o diagnóstico pronto, e podem estar errados. Um exemplo: confundir desinteresse em estudar com um dos sintomas de depressão que vou falar mais abaixo.

A depressão acomete os adolescentes de uma forma distinta do adulto. Isso ocorre pois o desenvolvimento do adolescente está em uma fase diferente, e são esperados comportamentos diferentes. Por exemplo, nos adolescente é muito mais comum o humor irritável, e apresentar comportamentos como: se irritar por tudo, ser intolerante com brincadeiras ou coisas que antes não ligava, implicar com coisas simples, queixar-se do comportamento dos pais.

Outra característica importante da depressão em adolescentes é que eles começam a ir mal no colégio. As notas caem, ele não tem motivação para estudar, não copia a lição, não faz lição de casa, é desatento na aula, não quer ir para à escola. Em casos mais graves o adolescente chega a chorar na escola quando contrariado, sendo o choro mais comum em meninas.

O isolamento da família, permanecer muito tempo no quarto é um dos sintomas. Porém muito cuidado, é comum o adolescente se isolar da família e ficar mais com os amigos. Preste atenção também se ele deixou de se encontrar com os amigos, de namorar, de sair, de conversar on-line e passou a ficar no quarto só olhando para o teto.

Da mesma forma, deixar de fazer atividades que antes gostava é um sinal relevante que deve ser considerado. É normal os adolescentes mudarem bastante de interesses, mas eles, geralmente, estão ativos. Inclusive o tédio de não fazer nada é uma das coisas que o adolescente menos suporta. Se seu filho parou de andar de skate e passou a fazer capoeira, não tem problema nenhum. Todavia, se ele parou de andar de skate para ficar no quarto deitado, ai sim é um problema já que ele perdeu o prazer em algo que gostava e não apenas substituiu essa atividade por outra.

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Alguns adolescentes acabam se envolvendo no uso de drogas devido a um quadro depressivo. Não é que a depressão faça a pessoa usar drogas, mas ela pode causar no adolescente uma necessidade ainda mais intensa de necessidade de pertencer a um grupo. Para se enturmar o(a) garoto(a) pode presentar comportamentos característico daquele grupo, como o uso de substâncias psicoativas. Depois de usar a primeira vez ele percebe que a cerveja, a maconha, o narguilé pode deixá-lo momentaneamente mais feliz, e passa a usar constantemente a substância com a finalidade de modificar o seu humor. É o que chamamos de dependência emocional das drogas.

Além disso, adolescentes deprimidos podem colocar-se em situações de risco. Pela fase de desenvolvimento que estão, os adolescentes têm dificuldades em prever possíveis consequências de seus comportamentos, por isso em determinados momentos estão muito preocupados com pormenores e em outros são tão inconsequentes. Já quando estão deprimidos, esta dificuldade inerente é exacerbada por uma coisa chamada variação de comportamento. Quando estamos nos sentindo mal por alguma coisa a tendência é que façamos algo novo para modificar o sentimento. A combinação destes dois fatores leva a pessoa a experimentar coisas diferentes para modificar o humor, porém sem se importar se é bom ou ruim. Isso pode pode levar a ter relações sexuais de risco, experimentar drogas, frequentar lugares perigosos, andar em companhias que são má influência e até cometer atos infracionais.

O risco de suicídio em adolescentes

Apesar de muitos adolescentes apresentar um físico de adulto, o cérebro não ainda está em desenvolvimento. Mesmo não sendo mais criança, o adolescente ainda vai apresentar dificuldade de controlar o próprio comportamento e tendência a agir por impulso. Por isso em adolescentes deprimidos o risco de suicídio sempre deve ser considerado.

Atualmente o suicídio é a segunda maior causa de morte na adolescência no Brasil. É importante frisar que a tentativa de suicídio não é necessariamente um desejo real de morrer, e sim uma visão equivocada de que é a única forma de acabar com o sofrimento. Um adolescente que tenta suicídio é alguém que está dizendo “estou sofrendo muito, não quero mais sofrer”.

Alguns fatores são muito importantes ao considerar o risco de suicídio em adolescentes, são os fatores de risco e de proteção.

Os fatores de risco podem ser: depressão, ansiedade, déficit de habilidades sociais, vitima de bullying, morte de um ente querido, perda de um(a) namorado(a), conflitos familiares intensos, homossexualidade, histórico familiar de pessoas que cometeram suicídio, mãe com transtorno de humor, pai com problemas com a lei, abuso de álcool e outras drogas, vitima de violência sexual ou psicológica e a presença de algum transtorno mental.

Outro dado importante é que adolescentes que ficam mais de cinco horas diariamente na internet e/ou redes sociais tem possibilidade dez vezes maior de morte por suicídio.

Por outro lado, também temos fatores que são considerados protetivos para os adolescentes: fortes vínculos familiares, ter alguma religião que desencoraje o suicídio , abertura para conversar sobre assuntos difíceis com os pais, acesso fácil a serviços de saúde mental, e pais sensíveis aos comportamentos dos filhos.

Há alguns sinais que pode indicar risco de suicídio, aos quais os pais devem ficar atentos: pouca higiene e negligência com a aparência pessoal, depressão, sentimento de desesperança, baixa auto estima, alterações drásticas no humor, histórico de tentativas de suicídio, alteração no apetite, distúrbios do sono, tensão, ansiedade e nervosismo, pouco controle de impulsos. Saliento que é apenas um destes sintomas não quer dizer nada, todo o contexto deve ser considerado.

Muitas vezes os adolescentes avisam que estão com ideação suicida, seja direta ou indiretamente. Frases como “queria nunca ter nascido”, “vou deixar vocês em paz”, “vou sumir”, “eu não aguento mais” ou “gostaria de dormir e nunca mais acordar” devem ser melhor investigadas. Ameaças diretas ou indiretas de se matar também são sinais importantes que não devem ser negligenciados, ainda mais se acompanhados por outros sintomas que relatei no artigo. Muitos adolescentes procuram formas de se matar na Internet, pois não querem sofrer ao tirar a própria vida. Se você ver no histórico do computador esse tipo de pesquisa procure urgente ajuda de um profissional.

Os fatores de risco podem estar presentes e o adolescente não realizar uma tentativa de suicídio quando fatores de proteção estão balanceando a situação. Porém há algumas situações que podem ser desencadeantes da tentativa: termino de namoro, dificuldades na escola, incluindo ser suspenso ou expulso, estar separado dos pais, falta de contatos sociais, conflito muito intenso com os pais ou ente querido, vitima de bullying e assistir relatos de suicídio pela mídia.

Como tratar adolescentes com depressão

O tratamento da depressão na adolescência é realizado de duas formas: aumentar os fatores de proteção e procurar ajuda profissional.

No primeiro caso, a família e amigos devem proporcionar um ambiente amigável, que o adolescente possa falar sobre o que está sentindo sem se sentir criticado. Isso é muito difícil para os pais, que sempre querem dar alguma lição ou criticar o comportamento do filho de alguma forma, pensando que assim ele vai mudar e melhorar.

Por outro lado, o acompanhamento profissional deve ser realizado por dois tipos de profissionais, o médico psiquiatra (ou clínico mesmo) e o psicólogo.

O psiquiatra vai ser importante em casos mais graves de depressão, que apresentam risco de suicídio ou sintomas psicóticos (vê ou ouve coisas). Sei que pensar no filho tomando remédios psiquiátricos pode trazer alguma aflição aos pais, contudo eles podem ser muito importante na hora de lidar com uma crise ou ter uma resposta rápida em situações de grande necessidade.

Já o psicólogo é o profissional que indispensável nestes casos, uma vez que é quem vai fazer o acolhimento do adolescente e ser a pessoa a quem ele pode contar sobre seus problemas sem ser julgado. É em quem ele vai confiar para poder ajudá-lo a lidar com as dificuldades que não consegue, vai ser a figura de apoio que precisa quando pensar em se matar, é a quem vai recorrer nos momentos de sofrimento. Mesmo o adolescente não querendo, leve-o para pelo menos uma consulta com o psicólogo, o profissional vai saber acolher o adolescente e criar um vínculo para ele voltar outras vezes.

Se a sua filha ou o seu filho está com alguns sintomas dos descritos aqui, a melhor opção é procurar um profissional para fazer uma avaliação, se realmente for depressão há tratamentos que podem trazer a alegria a seu filho novamente.

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